|
Marcelo Godoy
No início de maio aconteceu a 11 edição do Festival Futuresonic www.futuresonic.com em Manchester, Inglaterra. Paulo Hartmann e eu, organizadores do Festival Mobilefest, fomos convidados a participar de cinco dias de encontros sobre arte, tecnologia, música e idéias.
O evento contou ainda com Fórum de tecnologias sociais e uma Mostra Expositiva com o tema “Social Network Unplugged” . A grande preocupação das discussões do Fórum de Tecnologia foi com o tamanho e a importância que as redes sociais estão tomando em toda a sociedade e a questão da privacidade.
Parece que depois das grandes noitadas e baladas 2.0 nas redes sociais, (Facebook, Orkut , Myspace, Flickr, Youtube e as peripécias do Twitter) regadas a banda larga fixa e móvel a vontade, começa a surgir no primeiro mundo uma desconfortável sensação, um sentimento arrependido e desconfiado de que talvez no meio de tanta diversão, farra e gratuidade, algo de muito valor tenha sido perdido ou pior, dado de graça.
Na web, as fotos, músicas, comunidades, e-mails, vídeos, referências cruzadas, posts e opiniões sobre tudo e sobre todos ,incluindo localização por GPS e LBS, passaram a fazer parte de um significativo e consistente “rastro” on-line . Imaginemos um jovem executivo de 26 anos que utiliza as redes sociais desde seus 15 anos. Um dia ele resolve apagar parte do seu conteúdo on line, afinal ele amadureceu (sic) e certas coisas, certas fotos e opiniões não deveriam mais estar publicadas, principalmente com aquela entrevista de emprego a vista. Será que ele consegue apagar definitivamente sua história digital nas redes sociais? A resposta é orwelliana: nada será apagado, o usuário somente será desligado, mas todos os dados continuarão armazenados no servidor das empresas. Assim, ao concordar automaticamente com os “termos de uso” dos sites, o usuário abre mão da possibilidade de deletar seu passado digital seja ele qual for, for ever.
Se não existe almoço grátis no mundo real, no virtual, a conta invisível pode sair ainda mais cara. Como as empresas irão utilizar os dados e informações sobre seus usuários no futuro ?
O trabalho apresentado pelos artistas Julian Priest e David Merrit intitulado “ Terms of Endearment” é uma crítica ou um alerta dos contratos que assinamos sem saber. Uma série de 9 quadros brancos com trechos especialmente selecionados dos “termos de uso” , aqueles textos enormes que nunca lemos quando aceitamos utilizar os serviços das redes sociais. A parte de baixo dos quadros, uma etiqueta apresenta o valor em dólar de cada novo usuário para as redes sociais; Flickr, You tube, Orkut, Facebook, Linked-in e Twitter, que no momento da exposição, tinha a maior cotação por usuário.



Em outro local da cidade de Manchester, a Curadoria do evento selecionou artistas que apresentaram instalações divertidas, recheadas de metalinguagem e ironia sobre o universo on line das redes sociais.
O trabalho “Plan B- My Space-OurSpace-Your Space” , localizado em um simpático café, é um excelente exemplo: os participantes recebiam uma caixote de papelão e tinham a disposição tesouras, canetas, colas , revistas e figuras para criarem o seu espaço representativo, como uma página no My Space . Os trabalhos finalizados eram colocados na vitrine da loja e quem se interessasse por um perfil, podia deixar uma cartinha em um envelope dentro da caixinha. Abaixo fotos da instalação no centro de Manchester.

.JPG)
O significado da palavra “amigo” mudou radicalmente com a o advento das redes sociais.Hoje uma adolescente de 17 anos coleciona facilmente 300 amigos, uma façanha incrível em outros tempos.
O trabalho do artista Aram Bartholl,“ Friend ” convidadava os visitantes da galeria CUBE a uma viagem ao passado: completar um álbum de “Amigos” de forma personalizada e analógica, com fotos de polaroid, textos, colagens, papel carbono, carimbos e adesivos colantes que faziam parte do material para se compor o álbum dos “Friends”. Estes tipos de álbuns eram bastante comuns nas décadas de 70 e 80 e quantos mais páginas e depoimentos tivesse mais popular seria o proprietário(a) do Book. Abaixo, fotos da instalação na Galeria Cube em Manchester.



No fundo, parece que nada mudou. Com as novas tecnologias apenas se encurtaram os caminhos para a popularidade e para uma sensação de segurança, seja ela afetiva, psicológica ou financeira. Continuamos iguais, mas se antes todos queriam mergulhar e se divertir no mundo digital, agora já tem cliente querendo pagar para sair incólume do mar virtual. Na próxima geração de serviços, usuário de um cartão de crédito poderá optar por pagar um adicional para que seu nome não seja traqueado ao comprar uma passagem aérea ou um serviço de TV a cabo.
Os europeus que não tem tanto que se preocupar com escolas, hospitais, saneamento básico, inclusão digital e outras carências dos trópicos, já estavam de olhos escancarados para a infindável quantidade de câmeras de segurança que vigiam tudo, o tempo todo, em todo lugar. Agora com o “mistério” sobre o uso futuro dos dados pessoais publicados nas redes sociais, a paranóia de vigilância, controle e perseguição só tende a aumentar .
|